É incrível como BIKE e AVENTURA estão relacionados.

Tem três dias que o Rodrigo Maeda não dorme direito, fica arrumando as malas, ?rolando? na cama e falando sem parar sobre a competição de São Paulo. A esposa dele, Mille, até tenta dormir quando ele, finalmente, dorme. Daí, de repente:

- VAI! VAI! FORÇA NESTE PEDAL!!!

- Digo, acorda, acorda!!! Você está sonhando de novo, acorda!!!

- VAI!!! TEMOS CHANCE!!! TEMOS CHANCE!!!

Ela vira de lado, desiste de dormir e tenta se proteger das ?pedaladas? dele, pensando: ?Tudo bem... é por uma boa causa!?

É que o Othon e o Rodrigo vão participar, junto com os deficientes visuais, Wallace e Ailton, do I Campeonato Brasileiro de Ciclismo Paraolímpico que acontecerá nos dias 10,11 e 12 de novembro na cidade de Itapetininga, em São Paulo. Desta vez, os atletas destaques (1º, 2º e 3º lugar) poderão pleitear a Bolsa-atleta, que equivale a uma ajuda de custo de R$ 750,00 por mês, durante um ano.

Pronto!!! Daí vocês imaginem...

Além da vontade de vencer, os nossos REBAS ainda querem propiciar esta possibilidade aos nossos def. visuais (que são carentes financeiramente) de receber a bolsa.

Treinos 6 vezes por semana, sob sol ou chuva (muito mais chuva do que sol).

A Andréa é a nossa Chefe de Delegação: dispensa do trabalho, passagens, documentos, hospedagem... uma correria...

Chega o dia: ontem (09/11), 22:15 hs. Vão viajar: a Andréa, o Othon, o Wallace, o Rodrigo e o Ailton.

Tá tudo certo!

A Simone e o Danilo ficaram responsáveis de levar as bikes para a Rodoferroviária.

TAVA tudo certo, com 30 min. de antecedência, quando, no caminho, o Danilo começa a passar mal. Nada sério. Só umas pontadas na barriga. 5 minutos se resolve. Eles param em um restaurante e ele vai para o banheiro.

Chegando lá, uma criança usando o único banheiro masculino.

- Ei garoto, vai demorar?

- VOU!

- Muito?

- To fazendo cocô... Vou demorar.

Danilo desiste de ir ao banheiro. Tá indo embora, quando sente novamente uma pontada na barriga. Olha para trás e vê a porta do banheiro feminino aberta. Lá dentro, duas portas abertas. Ninguém.

- Temos que levar as bikes. Vou neste banheiro mesmo. É rapidão. Ninguém vai ver. Já pensou se demoro e as bikes não vão para a Sampa?

E entra. Acabou de fechar a porta quando ouve duas meninas entrando. Elas, como manda o costume feminino, começam a conversar sobre tudo. Tudo mesmo.

O Danilo tá prontinho para sair, mas, como? Se elas virem ele saindo podem começar a gritar e criar a maior confusão. No mínimo, atentado ao pudor. Ferrou-se, e agora?

É melhor esperar.

10 minutos depois elas saem e, em seguida, sai correndo o Danilo.

Faltam 15 minutos para o ônibus sair e estamos na 113 sul com as bikes! CARACAS!!!!!

Às 22:18 hs chegamos na Rodoferroviária.

- ?Pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não não liga prá ela...?

- Que isso, Othon?

- Meu celular, o que é que tem? Alô?

- Othon, onde vocês estão?

- Ué, no ônibus.

- JÁ SAIRAM?

- Estamos saindo.

- Então, segura o ônibus. Estamos chegando com as Bikes.

- Elas não estão com o Rodrigo?

- Como assim? O Rodrigo não embarcou?

- Não!!! Fez e refez tantas vezes a mala que esqueceu a sapatilha. Foi buscar em casa e vai nos encontrar em Valparaíso.

Daí a ficha do Othon caiu: estamos sem as bikes: MOTORISTA, MOTORISTA, PÁRA O ÔNIBUS.

O motorista olhou, de cima embaixo para o rapaz que gritava, e achou melhor parar.

UFA!!! Embarcamos as bicicletas.

No meio do caminho para casa, o Rodrigo percebeu que não daria tempo de pegar a sapatilha.

- Vai direto para Valparaíso, cara, a gente manda a sapatilha por Sedex 10.

Ele foi, inconsolável, e embarcou.

8:00 hs da manhã a esposa do Rodrigo liga dizendo que não tem sedex 10 em Itapetininga.

- Estou indo para o aeroporto.

- Que legal!!!! Vai despachar as sapatilhas?

- Vou levar as sapatilhas pra ele.

- Como é que é? Caracas... Você está indo prá São Paulo agora?

- Ele está muito nervoso, tenho medo disso tudo interferir demais no resultado da prova, vou levar as sapatilhas e dar uma força.

- !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Beleza, mais uma pessoa para ajudar com os DVs.

Quando pensávamos que estava tudo resolvido...

TRIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Alô?

- Olha, estamos aqui em Campinas para pegar o ônibus para Itapetininga. Acontece que a empresa não está aceitando o passe livre dos DVs. Parece que a Lei aqui é diferente.

O Wallace e o Ailton se recusam a ir pagando a passagem. Estão revoltados.

- Vamos verificar a legislação e já ligamos. Será que tem perigo do ônibus deixar vocês?

Daí o Othon grita: Este ônibus não sai daqui de jeito nenhum.

O motorista olhou, de cima embaixo, o tamanho do REBA e... resolveu esperar.

Para vocês terem uma idéia, ele "segurou" o ônibus por 25 min.

Enquanto isso, corríamos atrás das legislações. Mas, como são específicas, ia demorar um pouco.

- "Pense em mim, chore por mim,..." Alô?

- Oi Othon, caramba, que gritaria é essa?

- Todo mundo desceu do ônibus.

- Estão reclamando do atraso? Querem bater em vocês? Cuidado!!!

- Não! Tomaram a dor dos DVs. Estamos todos brigando com o motorista.

Enfim, a nossa chefe de delegação decidiu que seria melhor comprar as passagens e, se for preciso, pedir o ressarcimento depois. Afinal, a competição é amanhã.

Neste momento, os seis estão a caminho de Itapetininga.

Contei tudo isso, para vocês terem idéia do que é capaz um REBA quando se envolve em um projeto.

Assim, parabenizamos o envolvimento e dedicação dos 5, agora 6, REBAS que foram para a competição. Estamos na torcida e aguardando as novidades!!!

 

Quem quiser dar uma olhadinha, para saber mais sobre a prova, o site do Comitê Paraolímpico é: www.cpb.org.br/noticias/integra.asp?e=13825

Abraços e inté,

Simone.

 

Texto elaborado por Simone Cosenza.
Coordenação do Projeto Deficiente Visual na Trilha
10Nov2006.

- Bora, bora, bora! Vai largar! Vai largar! Vamos começar este pedal!!!

- Peraí! Quem está com a minha bengala?

- E os meus óculos?

- Todo mundo com o colete? Ele é um equipamento de segurança tão importante quanto o capacete...

- Cadê a camisa do Grupo?

- Iiiihhhh, não é essa não? Fala sério... Eu sou cego, lembra? Às vezes a gente confunde mesmo as camisas.

- Ah é...

- Bora! Bora!!!!

- UHHHHHHUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!

E, em meio a esta algazarra, lá se vão os portadores de deficiência visual (DVs) pedalando pelas ruas e trilhas de Brasília...

- Mas como? Desde quando cego pedala? Não é possível...

- É sim... eles pedalam. E muito!!! Vou contar...

Tudo começou em dezembro de 2004 com o evento ?Neste Natal vai dar Pedal para o Deficiente Visual?. Era para ser uma ação social de um dia, mas o sucesso foi tão grande e contagiante que ninguém conseguiu mais parar.

- Neste Natal aí, os cegos aprenderam como pedalar?

- Sim! Convocamos ciclistas de diversos grupos de Brasília para conduzirem bicicletas tandem (aquelas para duas pessoas). Quem enxergava ía na frente e, atrás, o DV. Foi só emoção...

Afinal, já pensou?... Alguém que nasceu cego poder experimentar, pela primeira vez na vida, o vento no rosto e a sensação de liberdade que a bike traz? E o prazer daqueles que perderam a visão no decorrer da vida e não pedalavam há 10, 20 anos... Você consegue imaginar?

- Uau!!!! E aí? E aí? Como foi?

- Uma onda de emoção contagiante. Os deficientes visuais desciam das bikes tremendo e chorando. Tivemos que amparar vários deles para que não caíssem. Os condutores, por sua vez, não conseguiam segurar as lágrimas também.

Daí, nós, do grupo de mountain bike Rebas do Cerrado em parceria com o CEEDV (Centro de Ensino Especial do Deficiente Visual), resolvemos dividir com os DVs uma das sensações que mais nos faz felizes: a sensação de pedalar. E assim, transformamos o milagre daquele dia numa conquista constante, de todos os sábados. Foi criado o Projeto Deficiente Visual na Trilha.

Saímos do ?zero? e entramos ?com a cara e a coragem?.

Mal sabíamos das restrições de um DV e a forma como deveríamos tratá-lo para que ele atingisse os objetivos que estávamos propondo: de integração social, prática de esporte e opção de lazer.

Sabíamos que o projeto era caro, mas muito mais caro seria o contato com os DVs. Aprendemos muito nestes anos. Estamos ainda aprendendo...

Como em qualquer pedalada, caímos muito. Caímos e aprendemos a levantar. Várias vezes. E assim, fomos construindo a nossa história, juntos.

Vamos em frente porque sabemos que estamos crescendo e fazendo que os DVs cresçam conosco.

Não crescemos só no pedal, crescemos também na socialização, na cooperação, na doação e, principalmente, na humildade.

E já fomos longe... longe demais....dos simples passeios pelas ruas de Brasília às raias de madeira do circuito oval inclinado do Parapanamericano de 2007 na Colômbia; fomos à maior competição de mountain bike do Brasil, o Iron Biker (até ganhamos troféu pela inédita participação); estivemos em três Campeonatos Brasileiros de Ciclismo Paraolímpico; três ?Superando Limites?; dois Audax 200 Km; e à várias competições regionais....

Não é pouco não....

E assim, a cada conquista, vamos nos alimentando de coragem para tocar estas grandes bikes, com dois ciclistas a encarar os barrancos, down hills, pó-de-estrada e subidas infinitas. Em um trabalho totalmente voluntário onde a diferença nos possibilita conquistar amigos e superar dificuldades.

Dizem que quando perdemos um sentido passamos por um processo de ?compensação?. Ou seja, outro sentido ?ganha? a possibilidade de desenvolver muito mais seu potencial. Pois a bicicleta, neste caso, tem sido um grande instrumento para ajudar a desenvolver o maior dos sentidos da vida: o de solidariedade.

Texto elaborado por Simone Cosenza e Marcelino Brandão.
Coordenação do Projeto Deficiente Visual na Trilha
Bsb, 01/04/2008.

Depoimento realizado em 01/04/2006
Simone Cosenza e Marcelino Brandão

Onde nos encontrar

Nos reunimos, quinzenalmente, aos sábados, às 9h no Jardim Botânico de Brasília
SMDB Cj 12 CL - Lago Sul, Brasília - DF, 71680-001

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